Uns anos atrás fiz uma comparação
econômica entre o Brasil e dois países bálticos. Nela ficou patente o quão
facilmente fomos superados por aqueles dois países. Já em outra oportunidade,
comparei países da América Latina, separando-os em dois grupos: bolivarianos e neoliberais. Embora fosse uma comparação entre grupos, também ficou visível que
o Brasil ficou para trás.
Nesse artigo farei uma comparação
direta entre Brasil e Chile (país que se consolida cada vez mais como o mais
avançado de nossa região). Tal comparação nos leva a refletir sobre qual
caminho a economia brasileira tem de trilhar nas próximas décadas. E também
abre espaços para diversas interpretações do sucesso chileno e fracasso
brasileiro. Serão então apresentados aqui alguns indicadores que denotam a
diferença de performance socioeconômica dos dois países.
PIB Per Capita PPP (1990 – 2017)
Podemos ver no gráfico que o Brasil saiu de uma renda per capita ajustada pelo poder de compra de US$ 10.300, em 1990, para uma de US$ 14.100 em 2017. O que representa um crescimento anual de 1,7%.
Podemos ver no gráfico que o Brasil saiu de uma renda per capita ajustada pelo poder de compra de US$ 10.300, em 1990, para uma de US$ 14.100 em 2017. O que representa um crescimento anual de 1,7%.
Já o Chile saiu de uma renda per
capita de US$ 9.000 para uma de US$ 22.750 no mesmo período. O que representou
um crescimento anual de 3,48%. Mais que o dobro do brasileiro. Isso, sem sombra
de dúvidas, refletiu em muitos aspectos do padrão de vida do chileno, como, por
exemplo, seus salários. Esse é nosso próximo item de comparação.
Salário médio (2000 – 2018)
Segundo dados do IBGE, o salário
médio do trabalhador brasileiro era de 5 vezes o salário mínimo em 2000. Como o
salário mínimo naquela época era de R$ 151,00, o salário médio era então de R$
755,00 mensais.
Se atualizarmos esse valor pela
inflação acumulada de janeiro de 2001 até dezembro de 2018, temos um valor de
R$ 2.287,65. Como o salário médio do trabalhador brasileiro no último trimestre
de 2018 foi de R$ 2.289,00, temos aí uma estagnação de quase 20 anos. Se for
levado em conta que a média salarial dos funcionários públicos aumentou no período, chegamos à conclusão de que o rendimento médio do trabalhador
brasileiro com carteira assinada é menor hoje do que era em 2000!
Ainda, como o desemprego é maior
hoje do que era naquele ano, Isso possivelmente significa que o crescimento, apesar de pífio,
da economia brasileira foi para outro lugar que não à massa salarial. Pode ter
ido para o lucro das empresas, assim como para bancar o crescimento do gasto
social do estado brasileiro (previdência e assistência). Só um estudo mais
aprofundando para dizer ao certo. O fato é que a renda média do trabalhador
brasileiro nada mudou no período.
A situação no Chile se mostra bem
diferente. Como não encontrei o salário médio do trabalhador chileno em pesos
para o ano de 2000, tive que me contentar com dados apresentados por um
interessante site. Segundo esse site, o rendimento médio do trabalhador chileno
em 2000 era de 7.408 euros anuais. Já em 2018, era 12.755 euros. O que
representa um incremento superior a 72% no período. Esse valor, convertido em
reais, daria um rendimento de R$ 4.666,20 ao mês. Mais que o dobro do salário
médio brasileiro!
O site não esclarece se são euros
em valores constantes, porém, como a cotação do peso chileno não apreciou
nominalmente quando comparados os períodos, é certo que houve um aumento robusto no
rendimento do trabalhador chileno.
Dívida Pública
Na questão da dívida pública, é um outro 7x1 que o Chile aplica no Brasil. Podemos ver o quão ínfima é a dívida pública chilena frente à brasileira. Menos que um terço do tamanho. A diferença seria ainda mais discrepante se os chilenos não tivessem adotado entre 2008 e 2012 uma política de acumulação de reservas internacionais. Certamente, tal condição é um dos fatores a explicar como que um país ainda emergente como Chile consegue ter juros próximos dos de países desenvolvidos, enquanto que o Brasil está entre os países com os maiores juros do mundo.
Na questão da dívida pública, é um outro 7x1 que o Chile aplica no Brasil. Podemos ver o quão ínfima é a dívida pública chilena frente à brasileira. Menos que um terço do tamanho. A diferença seria ainda mais discrepante se os chilenos não tivessem adotado entre 2008 e 2012 uma política de acumulação de reservas internacionais. Certamente, tal condição é um dos fatores a explicar como que um país ainda emergente como Chile consegue ter juros próximos dos de países desenvolvidos, enquanto que o Brasil está entre os países com os maiores juros do mundo.
Contas Públicas
O governo chileno é também, na média, muito mais austero que
o brasileiro. Aliás, austeridade em terras brasileiras jamais existiu nos
últimos 18 anos, caso levemos em conta o conceito nominal de resultado do setor público. Podemos ver nos gráficos que, enquanto que o governo chileno fez superávits nominais em 7
dos últimos 18 anos, o brasileiro acumulou déficits em todos eles. Aqui, quando
muito, existe algo chamado superávit primário. O qual, há mais de cinco anos, trata-se de um
animal desaparecido.
Inflação
Outro indicador de boa
administração chilena é a inflação. O Brasil melhorou bastante no quesito desde
a implementação do Plano Real, porém o desempenho no controle do poder de
compra da moeda nacional é inferior ao do vizinho.
A comparação se dá a partir de 1
de julho de 1995 (que foi quando começamos a ter inflação minimamente comparável)
até os dias atuais. Podemos ver que, no acumulado em
12 meses, o governo brasileiro poucas vezes conseguiu depreciar o poder de
compra da moeda em menos que 5% ao ano. Já no Chile, é o oposto. Na maior parte
do período, a inflação ficou abaixo dos 5%.
Índice de Gini
A surra dos chilenos não é apenas no aspecto econômico,
mas também quando levados em conta indicadores de desigualdade social.
Em 1990, o Chile tinha para o índice de gini um valor de
0,57, um dos mais altos do mundo e pouco inferior ao brasileiro (0,60). Já em 2017,
os dados eram 0,46 e 0,53, respectivamente. Isso significa que o Chile reduziu em 20% a desigualdade no período, enquanto que o Brasil, em apenas 12%.
Integração na economia global
No que tange à abertura econômica
e integração comercial, a economia chilena é novamente destaque na região. Com 22 acordos de livre comércio, é o país mais globalmente integrado da América
Latina. Como que para servir de mau
exemplo, o Brasil é o exato oposto. Tem acordo de livre comércio apenas com o
Mercosul e mais 5 países.
Por aqui é dominante a ideia de
que uma maior abertura econômica, principalmente em relação a países avançados,
representa uma ameaça à indústria nacional. De fato, possivelmente boa parte
dela seria dizimada com uma nova abertura. Mas esse é apenas o lado ruim (ou
bom?) do processo. Por outro lado, indústrias e outros segmentos mais
eficientes da economia brasileira seriam beneficiados com a abertura, pois
ganhariam acesso a novos (e pujantes) mercados e com isso teriam ganhos de
escala. Esse medo de enfrentar um
processo de destruição-criadora é o que está, em boa parte, empacando a
economia brasileira. Esse medo os chilenos mostraram não ter.
Carga tributária
Por último a comparação de carga
tributária. Dados da OCDE mostram que a carga tributária chilena é de apenas
20,4% do PIB, enquanto que a brasileira é de mais de 32%.
Como vimos em tópico anterior,
esses mais de 32% de carga não são suficientes para saciar a fome de recursos
do estado brasileiro, pois ele tem um déficit superior aos 7% do PIB (2018). O
que é uma tragédia para um país de renda média e de poupança raquítica como o
Brasil. Um estado que pesa quase 40% do
PIB, principalmente quando esse peso se dá sobre um país de renda média,
certamente afeta a competitividade de suas empresas. Por esse e outros
motivos, o Brasil é apenas 72º no ranking de competitividade do Fórum Econômico Mundial, enquanto que o Chile é o 33º.
Se o Brasil realizar uma nova
rodada de abertura econômica, possivelmente todas as suas desvantagens
competitivas serão compensadas via desvalorização da taxa de câmbio, o que
significa uma queda do poder de compra dos brasileiros medido em dólar. Ou
seja, a competitividade brasileira viria dos baixos salários. Tal situação ocorreu
com os velhos tigres asiáticos (e mais recentemente com a China) e ocorre hoje
com os novos tigres. É a maneira mais conhecida de um país com baixa produtividade
conseguir abocanhar mercados na economia global. Logo, torna-se urgente o
máximo de melhora institucional (eliminação de burocracias inúteis,
simplificação tributária e melhorias nas garantias de recuperação de crédito
para que os juros bancários possam cair) antes de uma nova abertura. Do
contrário, o ajuste se dará todo via taxa de câmbio. Tal constatação, porém, não pode ser impedimento à própria abertura.
Conclusão
O Chile é um exemplo ideal para
mostrar que muito há de errado no Brasil, na medida em que todos esses avanços
chilenos, tanto na área econômica quanto na área social, se deram a partir de
um estado que pouco aumentou o seu tamanho. Os que pregam que o estado deve ser
grande para que os indicadores socioeconômicos possam melhorar certamente não
encontram no país mais avançado da região um exemplo a os corroborar. O Chile
é, na verdade, o exato retrato de tudo que eles são contra no Brasil: estado enxuto, austeridade fiscal e monetária, integração econômica a partir de variados
acordos de livre comércio (mesmo com países mais desenvolvidos), aceitação de
que seu potencial está nas vantagens comparativas etc.
Fica então a minha remota esperança
de que o sucesso do Chile faça surgir alguns consensos aqui no Brasil. Remota, porque são vistas na esquerda brasileira apenas soluções que se resumem em
aumento de carga tributária e na volta do voluntarismo estatal (quando não coisa pior). Responsabilidade fiscal, integração comercial e um Estado que esteja mais dedicado à área social e menos na empresarial são coisas ainda vistas como sinônimos de neoliberalismo pela nossa esquerda. Esse quadro aparentava ter mudado com a experiência do primeiro mandato petista, porém ficou demonstrado tempos depois que a prática não se tratava mais do que mera conveniência. A crença no Estado redentor era a ideologia que dominava (e ainda domina) o petismo. Da mesma crença, embora de maneira um tanto diferente, compartilham o Psol e o PDT.
Com o enfraquecimento da esquerda moderna brasileira (PSDB), o Brasil corre o risco de viver nos próximos anos o mesmo dilema vivido na Argentina há décadas, onde se alternam no poder governos populistas e aqueles que tentam consertar as consequências desastrosas de suas políticas. Não dando tempo nem horizonte para que investimentos privados de longo prazo possam florescer naturalmente. Neste cenário confuso, o estatismo desenfreado, a fechadura comercial e políticas como substituição de importações são até sinônimos de uma maior (porém enganosa) estabilidade, ao menos até a coisa voltar a degringolar e exigir a volta de um governo reformista. No longo prazo, o país simplesmente empobrece em relação aos outros. Como consolo resta saber que este é um cenário melhor que o venezuelano, onde a insanidade popular, ao se permitir cair no conto do vigário socialista, levou aquele país à completa ruína.
Com o enfraquecimento da esquerda moderna brasileira (PSDB), o Brasil corre o risco de viver nos próximos anos o mesmo dilema vivido na Argentina há décadas, onde se alternam no poder governos populistas e aqueles que tentam consertar as consequências desastrosas de suas políticas. Não dando tempo nem horizonte para que investimentos privados de longo prazo possam florescer naturalmente. Neste cenário confuso, o estatismo desenfreado, a fechadura comercial e políticas como substituição de importações são até sinônimos de uma maior (porém enganosa) estabilidade, ao menos até a coisa voltar a degringolar e exigir a volta de um governo reformista. No longo prazo, o país simplesmente empobrece em relação aos outros. Como consolo resta saber que este é um cenário melhor que o venezuelano, onde a insanidade popular, ao se permitir cair no conto do vigário socialista, levou aquele país à completa ruína.
Notas:
[1] Posteriormente à postagem original, foi assinado o protocolo de intenções para o acordo Mercosul-União Europeia.
[2] Artigo atualizado no dia 01/09/2019.
[1] Posteriormente à postagem original, foi assinado o protocolo de intenções para o acordo Mercosul-União Europeia.
[2] Artigo atualizado no dia 01/09/2019.








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