Argentina - O ajuste postergado


A economia argentina se encontra hoje em uma situação no mínimo estranha. Em números, o crescimento econômico (3,6%) não é de se desprezar, principalmente se comparado ao crescimento da economia brasileira, mas há dois notórios desequilíbrios que demandarão ajustes futuramente.

O primeiro deles é a inflação. A inflação argentina é, atualmente (dados de julho), superior aos 31%. Isso significa mais de 5 pontos percentuais acima da inflação de janeiro (25,4%).

Grande parte dessa aceleração se deve à forte desvalorização do peso argentino, que quase dobrou sua cotação em relação à moeda americana desde janeiro.

Para tentar conter a desvalorização do peso e uma inflação ainda maior, o governo argentino vem fazendo uso de duas coisas: swaps cambiais e elevação de juros, porém há claros limites para o uso desses instrumentos. Por isso, temendo ter que queimar suas reservas em um futuro próximo, o governo argentino pediu ajuda ao FMI. A ajuda do FMI não é importante apenas nesse aspecto, é também em um outro: o do ajuste fiscal. Com o acordo com o FMI, o governo Macri teria uma motivação a mais para levar adiante no congresso medidas de austeridade.

Já o outro desequilíbrio é nas contas externas. O déficit externo argentino é, atualmente, de quase 5% do PIB. Discute-se se um déficit desse tamanho é sustentável ou não usando como exemplos outros países. A Austrália, por exemplo, tem déficits mais ou menos dessa magnitude já há mais de 30 anos. 
Déficit externo argentino em % do PIB

Déficit externo australiano em % do PIB

O déficit australiano vem sendo financiado parte por investimento direto, parte por endividamento. A Argentina poderia entrar então nesse mesmo jogo? Acredito que não, justamente pelo primeiro desequilíbrio. Ao contrário da Argentina, a inflação da Austrália é baixa. Tal cenário, certamente, é melhor para o financiamento de déficits externos do que um cenário inflacionário. Logo podemos concluir que o déficit argentino é insustentável.
Endividamento externo australiano em % do PIB

Dado que o déficit é insustentável, qual será o provável ajuste?

Nos manuais de macroeconomia, aprende-se que o déficit externo é resultado de um nível de poupança interno menor que o nível de investimento interno. De modo que, para reverter o déficit externo, é necessário que a poupança interna aumente em relação ao investimento interno. Para que isso ocorra, ao menos uma de duas variáveis a seguir tem de diminuir: (a) gastos do governo ou (b) consumo das famílias. Como resultado desse ajuste, é bastante crível que a economia argentina entre em recessão. O mesmo ajuste se dá no tocante ao enfrentamento da inflação.

Concluindo, é bem possível assistirmos uma recessão argentina nos próximos anos como resultado dos ajustes exigidos por esses dois desequilíbrios.





















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