Expansão monetária não causa inflação


Essa é a afirmação implícita feita por alguns heterodoxos brasileiros já há algum tempo, em tom de deboche, e se dá geralmente através da ilustração gráfica do crescimento da Base Monetária dos EUA. No entanto, tanto a afirmação quanto o deboche são injustificados quando o gráfico é analisado sem que sejam ignorados alguns conceitos. É o que, modestamente, se demonstrará a seguir.

Para começar, o que é Base Monetária?

Há dois conceitos para Base Monetária aqui no Brasil: (i) Restrita; e (ii) Ampliada.

Em seu conceito restrito, a base monetária leva em consideração as cédulas e moedas em circulação somadas aos recursos em posse dos bancos, os quais são chamados de Reservas Bancárias. Já no conceito Ampliado, além de se considerar o dinheiro em circulação e as Reservas Bancárias, são considerados também os depósitos compulsórios e os títulos públicos federais.[1]

Para efeitos de comparação, será usado aqui o conceito de Base Monetária Restrita. 

Dinheiro em posse da população, Reservas Bancárias e Crédito bancário

É preciso deixar claro que, levando-se em conta a Base Monetária, o dinheiro que impacta a economia, ou seja, que impacta as vendas e compras e portanto os preços, são as cédulas e moedas em posse da população. Já o dinheiro em Reservas Bancárias é simplesmente um recurso guardado pelos bancos que serve, entre outras coisas, de lastro para a concessão de empréstimos. Elas não são recursos em posse da população. O que são fontes de recursos para a população são os empréstimos concedidos pelos bancos, os quais são feitos tendo como base as Reservas Bancárias. Em resumo, há dois canais pelos quais o dinheiro chega à população e impacta a economia: (1) Base Monetária (desconsiderada as Reservas Bancárias); e (2) Crédito bancário. Entendido isso, sigamos.

A base do argumento

O argumento usado pelos heterodoxos tem como âmago um gráfico mostrando um incrível crescimento da Base Monetária dos EUA, trazido a seguir:


Podemos ver que o pico da BM dos EUA se deu em agosto de 2014 em um valor pouco superior a 4 trilhões de dólares, após as sucessivas rodadas de Quantitative Easing. Levando-se em consideração que antes do inícios das rodadas de QE's (agosto de 2008) o valor da BM americana era de 847 bilhões de dólares, o crescimento dela foi de aproximadamente 3,15 trilhões em seis anos. Um crescimento impressionante, que certamente leva ao surgimento de dúvidas e até mesmo contestações taxativas sobre uma verdade tida há muito tempo no meio econômico, se, novamente, ignorados certos conceitos.

Novamente as Reservas Bancárias

Voltemos às Reservas Bancárias, pois no gráfico a seguir elas serão cruciais para explicar o paradeiro de boa parte dos 3,15 trilhões de dólares adicionados à BM americana e, portanto, para explicar uma não explosão da inflação:


Observe que no mesmo agosto de 2014 há o pico nas Reservas Bancárias em excesso no valor de aproximadamente 2,7 trilhões de dólares. Observe também que antes de iniciarem as rodadas de QE's o valor era próximo de zero. Ou seja, dos 3,15 trilhões adicionados à BM, 2,7 trilhões foram parar diretamente nas Reservas Bancárias dos bancos. Dito de outra forma, mais de 85% do total de dinheiro adicionado com os QE's à BM americana foram parar em Reservas Bancárias. O que também é o mesmo que dizer que o valor de fato adicionado à economia americana, através da BM, foi de aproximadamente 450 bilhões de dólares em seis anos.

Mas não seriam 450 bilhões muito dinheiro para não impactar a inflação?

Façamos uma comparação com o Brasil para demonstrar que esses 450 bilhões adicionados em seis anos não foram lá grande coisa.


Em agosto de 2008, a BM brasileira era de aproximadamente 135 bilhões de reais; já em agosto de 2014, o valor era de aproximadamente 240 bilhões de reais. À primeira vista, pode-se ter a impressão de que a BM brasileira cresceu menos. Porém, não. O crescimento foi de 77,77% em seis anos, o que representa um ritmo de crescimento anual de 10,06% ao ano. Enquanto isso, a BM americana cresceu 53,12% em seis anos, ou seja, a um ritmo de 7,36%. Claro que essa não é uma comparação muito boa, pois nem só de BM se alimenta a inflação, como explicado inicialmente, porém serve para demonstrar que o crescimento da BM americana, quando levados em conta os devidos ajustes, não foi nada de se espantar. Portanto, também não é de se espantar não ter sido vista uma explosão da inflação.


Referências:

1 - https://www.bb.com.br/docs/pub/siteEsp/dimec/cva/dwn/Glossario_B.pdf
2 - https://fred.stlouisfed.org/series/BOGMBASE
3 - https://fred.stlouisfed.org/series/EXCSRESNS
4 - Séries temporais do BCB







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