Aqui no Brasil há uma inexplicável tara por superávits em balança comercial ou em conta corrente. Não pode aparecer um resultado "negativo" em um desses dois itens da balança de pagamentos, para que haja na mídia uma histeria. "Estamos dando mais do que recebendo do estrangeiro" é a mentalidade por traz da crítica. Sob tal aspecto, o comércio internacional não são trocas voluntárias e benéficas a ambas as populações dos países, mas sim um instrumento de empobrecimento ou enriquecimento entre países "superavitários" e "deficitários". É uma possível ameaça, é mercantilismo.
Dado que somos um país com baixíssima taxa de poupança, é um contra senso reclamar do déficit em conta corrente, se quisermos ter taxas maiores de investimento (algo urgente em um país extremamente carente nesse aspecto).
Para tentar contornar esse dilema, há duas explicações vindas dos ditos heterodoxos brasileiros: uma mais sensata e a outra, difícil de acreditar. A de cunho sensata diz que temos que aumentar primeiro nosso nível de poupança e que tal coisa se deve à forma como a previdência do país é estruturada. Clama pela troca de um sistema consumista como o de repartição para um sistema de capitalização. A outra explicação faz um apelo à teoria da demanda efetiva, segundo a qual o simples aumento do investimento resultaria em uma renda maior e, por tabela, em uma taxa de poupança maior. Ou seja, não é necessário um prévio aumento da taxa de poupança para que se aumente a taxa de investimento. Uma alternativa bem mais simples, porém mais difícil de acreditar.
Discutindo a sensata, digamos que a alteração de regime seja feita, levando-se em conta todo o gasto extra necessário para bancar a transição em um país jovem mas que já consome 14% do PIB em previdência, qual seria o efeito na taxa de poupança? Muito ou pouco? Eu tendo a crer que seria pouco para bancar o nível de investimentos de que o país necessita. Portanto a necessidade de se utilizar poupança externa dificilmente não será algo presente em nossa realidade, mesmo com uma mudança de regime previdenciário.
Dada essa "fatalidade", é possível ter crescimento econômico sustentável a partir de um modelo baseado em poupança externa? Tal coisa seria um fator de dependência, típica de uma relação chamada por alguns de "centro-periferia"? O que diz a experiência?
Nesse sentido, a experiência dos países do leste asiático - Coreia do Sul, Taiwan e Singapura - mostra que é perfeitamente possível se desenvolver com poupança externa. A Coreia do Sul, por exemplo, teve constantes déficits externos entre 1960 e 1985, beirando os 10% de seu PNB muitas vezes.
Podemos ver da tabela que a taxa de poupança interna da Coreia era inicialmente muito baixa, quase a metade da que o Brasil tem hoje. Sendo assim, o investimento durante a década de 60 foi bancado majoritariamente por poupança externa. Nas décadas seguintes, houve substancial aumento de sua poupança interna, porém foi apenas na segunda metade dos anos 80 que a Coreia pôde dispensar o financiamento externo. Tal experiência mostra que, ao invés de ter sido um fator de dependência (perigo pregado por alguns de forma preconceituosa) para a Coreia, a poupança externa foi um fator fundamental para seu desenvolvimento econômico e seu protagonismo na área de tecnologia. Dinâmica semelhante aconteceu também em Taiwan e Singapura.
Enfim, o que fica claro com esse e outros tantos exemplos de países que se desenvolveram com poupança externa é que a histeria contra o déficit em conta corrente é no fundo uma bobagem que economicamente não tem sentido algum, seja teórico ou empírico.


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