Fim do velho modelo e O Plano Real
Ao tratar da problemática inflacionária, Ciro é bastante ortodoxo. Segundo ele, a causa da hiperinflação brasileira veio do colapso do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro aplicado desde 1950, que se baseava no financiamento externo a juros baratos. Com a mudança de patamar dos juros internacionais, essa fonte de financiamento secou, o modelo passou a financiar-se de endividamento interno e, levado às últimas consequências, do imposto inflacionário.[1] O Estado brasileiro só deixou de se financiar via inflação com a implementação do Plano Real, que, segundo Ciro, era uma ideia cujas bases iniciais eram precárias.
O diagnóstico era que o problema fundamental da inflação seria a matriz fiscal deteriorada, porém, como não havia força política para as reformas estruturais no momento, era necessário primeiramente o encerramento da hiperinflação. Somente depois, com o advento de um capital político forte, daí resultante, as reformas deveriam ser feitas. As bases iniciais de sustentação do Real eram as seguintes, segundo Ciro: câmbio valorizado, juros extremamente altos e abertura econômica. Tratamentos cujos efeitos colaterais eram, segundo o próprio, danosos à economia brasileira, porém necessários até a questão fiscal ser solucionada. Tal posição de Ciro foi reiterada diversas vezes em outros artigos.[2] Podemos ver aqui que o "ovo da serpente" para o posterior brutal crescimento da dívida pública tem o apoio de Ciro.
Poupança, déficit público e juros altos
É também bastante ortodoxa a explicação de Ciro para o fato de o nível de poupança brasileiro ser tão baixo quanto é. Segundo Ciro, o maior fator que explica tal situação é o descalabro das contas públicas. E ele ainda vai além, fazendo uma ligação direta entre os juros altos e os déficits das contas públicas:
"O maior fator de falta de poupança no Brasil, nos últimos 15 anos, é o descalabro das contas públicas. Sem um centavo para investir em algo relevante, o setor público brasileiro condena a população a serviços públicos que não funcionam... e, pior dos mundos, drena para si toda a poupança privada, retirando-a de seu destino sadio, que é o de financiar as atividades produtivas... Por isso, fundamentalmente, vivemos a longa crônica superinflacionária. Por essa mesma razão, temos ainda as maiores taxas de juros do mundo."[3]
Importante destacar que para Ciro a poupança pública é um instrumento de forte influência do Estado no desenvolvimento econômico nacional. Exatamente por isso, Ciro é um áspero crítico do déficit público, já que sem poupança o Estado não poderia realizar tal papel de forma sustentável.
Privatizações
Ciro vê também importância nas privatizações, porém tal importância é um tanto diferente da que é a privatização na visão liberal. Para Ciro, as privatizações são úteis não porque empresas privadas tendem a ser mais eficientes que as públicas, mas sim porque elas são o meio mais eficaz de abater dívida pública e, consequentemente, levar à criação da aspirada poupança pública e "dotar o Estado da capacidade de emular o crescimento econômico". A crítica do Ciro aqui é somente na forma de como foram feitas as privatizações, que, segundo ele, foram por valores muito baixos e insuficientes para abater a dívida.[4]
Uma contradição
É possível observar uma contradição nos discursos de Ciro. Já nos finalmentes do livro, em uma entrevista em 2002, Ciro faz afirmações que a mim pareceram bastante contraditórias às posições defendidas por ele nos anos anteriores. Ele reclama do imenso galope da dívida pública e dos altos juros brasileiros, porém, a rigor, a justificativa dada por ele mesmo para o uso desses juros altos ainda permanecia naquele momento: o déficit público. De duas uma: ou o déficit público é justificativa para os juros altos ou reclama-se dos resultados de tal diagnóstico. Não dá para fazer os dois ao mesmo tempo sem entrar contradição. A partir daí, Ciro passa, repentinamente, a sugerir a renegociação da dívida pública (algo que em momento algum foi sugerido nos artigos escritos entre 1995 e 1999).
Lendo o resto da entrevista dá para depreender de Ciro que a falha não foi de diagnóstico, mas sim de execução. Ele fala que reformas não foram feitas no governo FHC em detrimento da pauta da reeleição e que os valores das privatizações foram muito baixos, assim como a forma de realizá-las foi errônea. Porém tais argumentos não são lá convincentes. A dívida subiria de qualquer maneira, devido aos juros estratosféricos, ao reconhecimento de passivos de períodos anteriores, à assunção da dívida dos Estados pela União, entre outras coisas[5]. Por isso, trocar hiperinflação por hiper-endividamento era algo, talvez, inevitável na época. Não dá para culpá-lo por achar o contrário, mas reclamar de consequências de medidas que tiveram o seu direto apoio, sem sequer fazer um mea-culpa, é uma coisa que não dá para engolir.
Conclusão
Apesar de discordar de muitas coisas vindas de Ciro, sendo a principal sua fixação quanto ao Estado ser motor de desenvolvimento econômico, após a leitura desse livro, é possível perceber que há certos pontos em comum entre as ideias de Ciro e as dos liberais. A figura um tanto folclórica que podemos ver em suas palestras e entrevistas praticamente não existe no livro. Nele, há um Ciro muito mais sensato. Mas qual é o Ciro verdadeiro: o do livro ou o das entrevistas e palestras?
Referências:
[1] p. 166
[2] p. 225
[3] p. 192
[4] Capítulo 12 - Privatização: um ponto de vista
[5] Entre 1994 e 2001, a dívida pública brasileira saiu de 37% para 61% do PIB. Esse incrível aumento se deveu a uma série de fatores: (I) arrumação das finanças estaduais; (II) reconhecimento de dívidas; (III) reestruturação do setor financeiro; (IV) política monetária; (V) e variação cambial. Segundo dados da Secretaria do Tesouro Nacional, 83% desse aumento se deveu aos dois primeiros fatores.
[5] Entre 1994 e 2001, a dívida pública brasileira saiu de 37% para 61% do PIB. Esse incrível aumento se deveu a uma série de fatores: (I) arrumação das finanças estaduais; (II) reconhecimento de dívidas; (III) reestruturação do setor financeiro; (IV) política monetária; (V) e variação cambial. Segundo dados da Secretaria do Tesouro Nacional, 83% desse aumento se deveu aos dois primeiros fatores.

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